Vivemos na atualidade uma época marcada pelo imediatismo, pelo egoísmo e o predomínio dos interesses pessoais perante a indiferença com o próximo. A sociedade atual é marcada pela instabilidade das relações, pelo empobrecimento de laços afetivos e pela ausência de referenciais, visto que os valores são constantemente consumidos e substituídos. O homem contemporâneo está sozinho, não há regras nem modelos a seguir. O imperativo é o princípio da autonomia e a doença do sujeito pós-moderno é a incerteza. As marcas da contemporaneidade estão envolvidas por uma crença de que tudo é possível, pois estamos diante de um esvaziamento da figura paterna que funcionava como autoridade, lei, interdição.
As formas de adoecer na contemporaneidade englobam vários sintomas e não se enquadram de modo preciso e rigoroso em nenhum quadro estrutural específico. Os objetivos a serem perseguidos são frágeis e mudam com muita frequência. O mundo contemporâneo é recheado de interrupção, instantaneidade, incoerência, surpresa e permeado de estímulos que são constantemente renovados. Desta forma, “nossas instituições, quadros de referência, estilos de vida, crenças e convicções mudam antes que tenham tempo de se solidificar em costumes, hábitos e verdades ‘auto evidentes’” (Bauman, 2003, p. 06)., Cria-se uma fantasia de que os sujeitos devem ser autossuficientes, que devem enfrentar de maneira individual qualquer contratempo que a vida apresente: Se ficam doentes, supõe-se que foi porque não foram suficientemente decididos e industriosos para seguirem seus tratamentos; se ficam desempregados, foi porque não aprenderam a passar por uma entrevista, ou porque não se esforçaram o suficiente para encontrar trabalho ou porque são, pura e simplesmente, avessos ao trabalho; se não estão seguros sobre as perspectivas de carreira e se agoniam sobre o futuro, é porque não são suficientemente bons em fazer amigos e influenciar pessoas e deixaram de aprender e dominar, como deveriam, as artes da autoexpressão e da impressão que causam. Isto é, em todo caso, o que lhes é dito hoje, e aquilo em que passaram a acreditar, de modo que agora se comportam como se essa fosse a verdade (Bauman, 2001, p. 43). A consequência disso é que o homem contemporâneo se tornou mais frágil e sente-se mais impotente diante de tanta solidão. Toda e qualquer culpa, todo e qualquer fracasso recai sobre ele próprio e ele “tem que” dar conta de enfrentar as consequências imprevisíveis de tamanha liberdade sozinho, absolutamente sozinho. E é também só que ele vai sentir o peso da autocrítica e da auto reprovação. Sendo assim, o sujeito de hoje é deficitário e impotente diante da exigência da sociedade de que ele pode tudo. Mas e quem é o responsável por expulsar os limites do impossível, interditando esta fantasia resultante do discurso da ciência pós-moderna? Ora, o que nos faz tomar consciência de que nem tudo é permitido é a nossa capacidade de simbolizar a falha, a falta. Isto se dá através da internalização dos interditos paternos. A ordem simbólica á adquirida pelo representante paterno que vem pôr fim à onipotência narcísica, que vem mostrar que a plena satisfação não é possível e que insere o sujeito na ordem desejante. O pai entra na relação mãe-bebê, tornando-se o terceiro a fim de indisponibilizar a mãe como objeto de gozo absoluto. Roudinesco (2003) apresenta-nos uma desordem na família ocidental do século XXI. Esta nova forma de representar a família manifesta-se pela invasão impetuosa do feminino e pela posição fundamental e onipotente conferida à maternidade, o que acabou causando a derrocada do paterno, culminando na queda da autoridade do pai. Aqui a autora fala de uma restauração do matriarcado, em que as novas configurações conjugais e familiares da pós-modernidade referem-se necessariamente à independência da mãe da instância simbólica interditora, até então remetida ao pai.
A contemporaneidade é então marcada pela falta de limites. Os sujeitos sentem-se livres das limitações, livres para agir conforme os seus próprios desejos (é o princípio da autonomia que foi detalhadamente especificado acima). Não há mais limites à satisfação. Estamos na cultura do carpe diem, do momento, do imediatismo, numa intensa despreocupação com a duração das coisas. O que vale é o prazer imediato. Esta supervalorização do presente e produz a permanente busca por prazeres evasivos e fugazes que, assim que forem apreendidos, já escapam. O prazer é, então, assim como a contemporaneidade, fluido. Em oposição ao sofrimento, tem-se a concepção de felicidade, que é entendida como a ausência de sentimentos ruins e está ligada a emoções de curto prazo.
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